A Guerra Fria foi o período de tensão que ocorreu entre o final da Segunda Guerra Mundial e a queda da União Soviética (1947 a 1991), marcada pelo estado de tensão entre as duas potências mundiais da época, os EUA (capitalistas) e a URSS (socialista), no qual se confrontavam com doutrinas ideológicas antagônicas destinadas a fortalecer-se a si próprio e a enfraquecer o adversário por meio de constantes dissídios e políticas de alianças, corrida armamentista, mas sem chegar ao confronto armado.

O fim da Segunda Guerra Mundial foi marcado por uma série de inúmeros tratados que dividiram o mundo em duas áreas de influência, uma sob controle capitalista liderado pelos EUA e outra sob controle socialista liderado pela URSS. Na Conferência de Teerã, em 1943, Roosevelt (presidente dos EUA), Stálin (líder da URSS) e Churchill (primeiro-ministro britânico) definiram a fronteira da Polônia em relação à União Soviética, garantindo a esta a anexação dos países bálticos e projetaram a divisão da Alemanha. Vendo próxima a derrota alemã, os três grandes se reuniram de novo na Conferência de Yalta em 1945. Stálin se beneficiou do rápido avanço soviético. Os três anunciaram princípios gerais, como a autodeterminação dos países e a democratização, sem definir qual democracia. Privada de governo, a Alemanha seria dividida em zonas de ocupação, bem como a Áustria; o ocidente admitiu a instalação do governo socialista de Tito na Iugoslávia; a Polônia perdia regiões conquistadas à Rússia em 1921 e receberia compensações em direção ao Rio Oder; os soviéticos se comprometiam a guerrear o Japão em troca de Port-Artur, sul das ilhas Sakhalinas e ilhas Kurilas.

Finda a guerra, parecia muito alto o preço pago aos soviéticos. Em clima de tensão, reuniu-se a Conferência de Potsdam, em 1945, agora com Truman, Stálin e Churchill. Os soviéticos haviam ocupado a maior parte da Europa central; não queriam que o ocidente se envolvesse na reorganização política da região. O Ocidente não queria que a União Soviética se intrometesse nas questões mediterrâneas e africanas. A Alemanha foi dividida em zonas de influência, dadas a americanos, soviéticos, ingleses, e franceses. Berlim, a capital, que ficava no setor soviético, foi igualmente dividida em quatro partes. Os vencedores impuseram aos alemães uma reparação de guerra de 20 milhões de dólares: 50% para a URSS, 14% para a Grã-Bretanha, 12,5% para os EUA e 10% para a França. A indústria bélica alemã foi amputada, a produção de aço limitada e certas fábricas desmontadas em favor dos aliados. Os principais chefes alemães seriam julgados, para desnazificar o país.

Além disso, o término da Segunda Guerra mudou o panorama político e econômico internacional. As perdas materiais e humanas da Europa e do Japão rebaixaram a posição das antigas potências. Surgem novas nações e novas organizações internacionais, como a ONU, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, criados em 1945.

A rivalidade entre aliados e soviéticos na Conferência de Potsdam, pela divisão do mundo em áreas de influência, inaugurou uma nova política internacional que conduziria, muito rapidamente, à Guerra Fria. Em 1946, Winston Churchill, já era mais o primeiro-ministro britânico, mas ainda um líder da resistência antinazista, tornou-se líder anti-soviético ao preferir violento discurso, nos EUA, defendendo, pela primeira vez, a necessidade de uma política de controle e de vigilância da URSS. Era preciso uma cortina de ferro em torno dela para evitar que entendesse seus domínios no leste europeu e na Ásia. Conclamava os EUA a assumirem a liderança mundial contra a sovietização do mundo.


Anos 40 e 50: A Guerra Fria Clássica

Reconstrução da Europa Ocidental

Missão gigantesca diante da destruição causada pela guerra. Só em perdas humanas a URSS teve 17 milhões; a Alemanha, 5,5 milhões; a Polônia, 4 milhões; a Iugoslávia, 1,6 milhão; a França, 535 mil; a Itália, 450 mil; os Estados Unidos, 410 mil; e o Reino Unido, 396 mil.

Hegemonia dos EUA

Conquistada em virtude do fortalecimento dos Estados Unidos durante a guerra, concomitante ao enfraquecimento relativo das potências européias. A economia norte-americana se expande internacionalmente. Suas Forças Armadas detêm o monopólio da bomba atômica e disseminam bases pelo mundo. Washington dita a política no Ocidente e disputa a hegemonia no resto do planeta. A supremacia econômica é alcançada com a exportação de capitais, empresas, produtos industriais e agrícolas e tecnologia. As empresas norte-americanas tornam-se multinacionais, com filiais espalhadas por todo o mundo. Exercem influência sobre as economias nacionais e determinam seu rumo. A busca da hegemonia política tem por base a Doutrina Truman.

Expansão Soviética

Apesar das perdas humanas e materiais, a URSS sai da guerra como grande potência econômica e militar. Aumenta a centralização política, a pretexto de uma rápida recuperação econômica e do perigo de uma nova guerra, desta vez contra as potências ocidentais, tendo os Estados Unidos à frente. Stalin centraliza em 1946 as funções de secretário-geral do Partido Comunista, primeiro-ministro e ministro da Defesa. Reorganiza os organismos de repressão política e intensifica a perseguição aos opositores. A economia é restaurada através da planificação centralizada, com prioridade para a indústria pesada. Em 1950 a produção industrial e agrícola atinge os níveis anteriores à guerra. As regiões industriais no oeste do país são reconstruídas e tem início a exploração da Sibéria. Intensifica-se a mecanização agrícola e as áreas de cultivo são ampliadas. Entra em execução um plano de massificação do ensino básico e técnico e tem início o rearmamento. O V Plano Qüinqüenal, entre 1951 e 1955, é voltado para a realização de obras energéticas e de irrigação e transporte fluvial. São executados projetos de armas modernas, centradas em artefatos nucleares e foguetes, e começa a pesquisa espacial.

Doutrina Truman

No início de 1947, estava dado o passo inicial da política da Guerra Fria, quando os Estados Unidos decidiram substituir a Inglaterra no controle da região do Mediterrâneo Oriental, principalmente na Grécia e na Turquia, contra o avanço soviético. A justificativa desse intervencionismo consta em um discurso de Harry Truman ao Congresso Norte Americano:

"(...) O governo britânico informou-nos de que, em virtude das suas próprias dificuldades, não pode proporcionar por mais tempo a ajuda financeira ou econômica que vinha prestando à Turquia. Somos o único país capaz de fornecê-la...

Os povos de certo número de países do mundo tiveram recentemente de aceitar regimes totalitários impostos, à força, contra a sua vontade. O governo dos Estados Unidos tem lavrado amiudados protestos contra a coerção e a intimidação, em flagrante desrespeito ao acordo de Yalta, na Polônia, na Romênia e na Bulgária. Devo também consignar que em certo número de outros países têm ocorrido fatos semelhantes.

No momento atual da história do mundo quase todas as nações se vêem na contingência de escolher entre modos alternativos de vida. E a escolha, freqüente vezes, não é livre.

Um dos modos de vida baseia-se na vontade da maioria e distingue-se pelas instituições livres, pelo governo representativo, pelas eleições livres, pelas garantias de liberdade individual, pela liberdade de palavra e de religião, pela libertação da opressão política.

O segundo modo de vida baseia-se na vontade da minoria, imposta pela força à maioria. Escora-se no terror e na opressão, no controle da imprensa e do rádio, em eleições fixas e na supressão das liberdades pessoais.

Acredito que precisamos ajudar os povos livres a elaborar seus destinos à sua maneira. Acredito que a nossa ajuda deve ser dada, principalmente, através da assistência econômica e financeira, essencial á estabilidade econômica e aos processos ordenados...

Alem dos fundos, solicito ao Congresso que autorize o envio pessoal civil e militar à Turquia e à Grécia, a pedido desses países, a fim de assistir nas tarefas de reconstrução e com o propósito de supervisar o emprego da assistência financeira e material que vier a ser fornecido...

Se fraquejarmos em nossa liderança, podemos pôr em perigo a paz do mundo – e poremos seguramente o bem-estar da nossa nação..."

Assim, estava lançada a base da Doutrina Truman. Segundo a qual a URSS apresenta um antagonismo inconciliável com o mundo capitalista, e a sua tendência expansionista só poderia ser mediante a hábil e vigente aplicação de uma contra força em uma série de pontos geográficos e políticos em constante mudança correspondente às mudanças e manobras das políticas soviéticas. Pela Doutrina Truman, era necessário bloquear o expansionismo soviético ponto a ponto, país por país, em todos os lugares que eles se manifestasse.

Plano Marshall

O Programa de Reconstrução da Europa (ERP) é elaborado em 1947 pelo secretário de Estado norte-americano George C. Marshall (1880-1959), com base na Doutrina Truman. Os Estados Unidos decidem abandonar a colaboração com a URSS e investir maciçamente na Europa ocidental para barrar a expansão comunista e assegurar sua própria hegemonia política na região. Washington fornece matérias-primas, produtos e capital, na forma de créditos e doações. Em contrapartida, o mercado europeu evita impor qualquer restrição à atividade das empresas norte-americanas. A distribuição dos fundos é realizada por meio da Organização Européia de Cooperação Econômica (OECE), fundada em Paris, em 1948. Entre 1948 e 1952, o Plano Marshall fornece US$ 14 bilhões para a reconstrução européia, na forma de fundos, créditos e suprimentos materiais a juros irrisórios.

OTAN

Em 1949, os Estados Unidos fizeram uma aliança militar com outros países europeus para combater a influência da União Soviética. Estava nascendo a OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, que completava, no campo militar, a Doutrina Truman. Criou-se um exército conjunto dos seguintes países: EUA, Alemanha Ocidental, Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Grã-Bretanha, Grécia, Islândia, Holanda, Itália, Noruega, Portugal e Turquia.

Pacto de Varsóvia

Em 1955, a União Soviética organizou um pacto de defesa mútua com todos os países que estavam sob sua influência. Esse pacto foi assinado na cidade de Varsóvia, na Polônia, e consistia em ajuda mútua em caso de agressão armada, consulta sobre problemas de segurança e questões políticas. Eram membros do Pacto de Varsóvia: URSS, Romênia, Tchecoslováquia, Bulgária, Polônia, Hungria e, posteriormente, a Alemanha Oriental.

Bloqueio de Berlim

A Doutrina Truman inviabilizou o projeto de reunificação da Alemanha nos primeiros anos do pós-guerra. O Plano Marshall, visando reconstruir a economia de mercado nas zonas de ocupação das potências capitalistas, ameaçava desestabilizar o controle soviético do lado oriental do país.

A resposta soviética não demorou. Uma série de pequenos incidentes entre EUA e URSS, como bloqueio de abastecimentos e de trânsito entre as áreas de controle, serviu para acirrar ainda mais as rivalidades.

Na porção ocupada pelos exércitos inglês, francês e americano formou-se a República Federal Alemã. As reformas econômicas e a ajuda norte-americana propiciaram a reconstrução da economia alemã em bases capitalistas, permitindo que os grandes trustes alemães se recuperassem.

Após a ocupação da sua zona, o exército soviético, procedeu a normalização política, permitindo a formação de vários partidos, iniciando a reforma agrária e nacionalizando os grandes monopólios alemães. Mas o acirramento das disputas entre os antigos aliados levou a URSS a atuar no sentido de favorecer uma solução socialista para a sua zona de ocupação.

Berlim também foi divida em quatro zonas de ocupação após a guerra. Assim, mesmo se localizando na porção soviética, a cidade não poderia ser ocupada por nenhuma das potências vitoriosas. À medida que as relações entre os antigos aliados iam-se tornando tensas, a URSS pressionava para que o setor ocidental da cidade fosse abandonado pelas outras potências. Mas os soviéticos não conseguiram alcançar seu intento. Em 1961, os soviéticos construíram um muro dividindo a cidade, para impedir a evasão de mão de obra especializada da RDA (socialista) para a RFA (capitalista).

Guerra da Coréia

Um dos momentos mais tensos dessa primeira fase foi a Guerra Fria. Em 1950, cinco anos depois de derrotar a Alemanha nazista, os Estados Unidos e a União Soviética, ex-aliados, entram em conflito pelo controle da Coréia, uma nova zona de influência, arriscando provocar uma terceira guerra mundial. A península da Coréia é cortada pelo paralelo 38, uma linha demarcatória que divide dois exércitos, dois Estados: a República da Coréia, no sul, e a República Popular Democrática da Coréia, no norte. Essa demarcação, existente desde 1945 por um acordo entre Moscou e Washington, dividiu o povo coreano em dois sistemas políticos opostos: no norte o comunismo apoiado pela União Soviética, e, no sul, o capitalismo apoiado pelos Estados Unidos.

Em 3 de julho de 1950, depois de várias tentativas para derrubar o governo do sul, a Coréia do Norte ataca de surpresa e toma Seul, a capital. As Nações Unidas condenam o ataque e enviam forças, comandadas pelo general americano Douglas MacArthur, para ajudar a Coréia do Sul a repelir os invasores. Em setembro, as forças das Nações Unidas começam uma ambiciosa ofensiva para retomar a costa oeste, ocupada pelo exército norte-coreano. Em 15 de setembro, chegam inesperadamente em Inchon, perto de Seul, e algumas horas depois entram na cidade ocupada. Os setenta mil soldados norte-coreanos são vencidos pelos cento e quarenta mil soldados das Nações Unidas. Cinco dias depois, exatamente três meses após o início das hostilidades, Seul é libertada.

Com essa vitória, os Estados Unidos mantêm sua supremacia no sul. Mas, para eles isso não basta. Em primeiro de outubro, as forças internacionais violam a fronteira do paralelo 38, como os coreanos haviam feito, e avançam para a Coréia do Norte. A capital, Piongiang, é invadida pelo exército sul-coreano e pelas tropas das Nações Unidas, que, em novembro, aproximam-se da fronteira com a China. Ameaçada, a China envia trezentos mil homens para ajudar a Coréia do Norte.

A Coréia do Norte é devastada. Os suprimentos enviados pela União Soviética são interceptados pelas forças das Nações Unidas. Durante quase três anos, o povo coreano, uma das mais notáveis culturas da Ásia, é envolvido em uma brutal guerra fratricida. Milhares de prisioneiros amontoados em campos de concentração esperam ansiosamente por um armistício. Com a ajuda da China, as forças das Nações Unidas são rechaçadas para a Coréia do Sul. A luta pelo paralelo 38 continua. Em Seul, as tropas são visitadas por artistas que tentam elevar seu moral.

O General MacArthur, insistindo em um ataque direto à China, é substituído, em abril de 51, pelo General Ridway. Em 23 de junho começam as negociações de paz, que duram dois anos e resultam num acordo assinado em Pamunjon, em 27 de julho de 53.
Mas, o único resultado é o cessar fogo. Na guerra coreana morreram cerca de três milhões e meio de pessoas. O tratado de paz ainda não foi assinado, e a Coréia continua dividida em Norte e Sul. A oportunidade chegou em junho de 1950, com os conflitos entre o sul e o norte da Coréia, na região dividida pelo paralelo 38. As duas partes reivindicavam para si a hegemonia sobre todo o país.

Os Estados Unidos, liderando uma força multinacional da ONU, enviaram, em setembro, suas tropas em auxílio ao governo sul-coreano. Ao mesmo tempo, fizeram grandes encomendas ao Japão, que ficou encarregado de fabricar roupas e suprimentos para as tropas na frente de batalha. Dessa forma, o Japão pôde iniciar a reconstrução de sua economia. A Guerra da Coréia durou três anos e matou pelo menos três milhões e quinhentas mil pessoas. No final, tudo como antes. As fronteiras permaneciam as mesmas, no paralelo 38, e os regimes dos dois países também: o norte sob o domínio dos comunistas pró-soviéticos e o sul controlado pelos capitalistas pró-Estados Unidos.

Após a guerra os Estados Unidos passaram a injetar na Coréia do Sul milhões de dólares todo o ano na intenção de impedir a volta do socialismo naquele país, como fez em vários outros países que circundavam a URSS. Com tanto dinheiro entrando nos cofres públicos, a Coréia do Sul foi se desenvolvendo, e com a entrada do capital japonês despontou como líder dos Tigres Asiáticos no final da década de 80 e por toda a década de 90. Porém o grande salto tecnológico e desenvolvimentista do pós-guerra da Coréia configura uma grande diferença sócio-econômica entre o país sulista e a Coréia do Norte, um dos fatos que dificulta a reunificação. Os impasses para que o país volte a ser um só são muitos. A reportagem seguir, retirada do jornal Gazeta do Povo, nº. 26.573, de 26 de julho de 2002, mostra a proposta de retomada do diálogo pela Coréia do Norte com o Sul, interrompido desde 29 de junho de 2002:

"Seul (AFP) – A Coréia do Norte lamentou o incidente naval do fim de junho com a Coréia do Sul e propôs ontem a retomada do diálogo em nível ministerial com o país vizinho, informaram fontes oficiais sul-coreanas.

O governo norte-coreano sugeriu que conversas preliminares ocorram no início de agosto, no Monte Kumgang, em seu território, para a preparação de um encontro de maior escalão, disse um porta-voz do Ministério da Reunificação.

As relações entre os dois países voltaram a ficar tensas depois do confronto naval de 29 de junho, que deixou 4 mortos, 1 desaparecido e 19 feridos entre os marinheiros sul-coreanos, e 30 mortos e feridos do lado norte-coreano, segundo o exército da Coréia do Sul.

A proposta foi enviada ao ministro da Reunificação, Jeong Se-Hyun – da cidade de Panmunjom, situada na área desmilitarizada – pelo chefe da delegação do Norte nas negociações anteriores, Kim Ryong-Song.

O presidente sul-coreano, Kim Dae-Jung, havia pedido que Pyongyang se desculpasse e punisse os responsáveis pelo incidente, o mais grave dos últimos três anos entre as duas Coréias. O presidente denunciou uma ‘provocação norte-coreana’, mas destacou que incidente não deveria pôr em dúvida sua política de abertura ao Norte, apesar do pedido da oposição de um endurecimento da posição sul-coreana.

Seul não respondeu imediatamente ao convite de Pyongyang, mas o recebeu de bom grado. ‘Sejam quais forem as circunstâncias, o diálogo deve continuar para garantir a paz na península’, indicou o Ministério da Reunificação através de um comunicado.

O chamado diálogo acontece no momento em que se evoca um possível encontro entre o ministro norte-coreano das Relações Exteriores, Paek Nam-Sum, e o americano Colin Powell, semana que vem em Brunei. Coincide também com um projeto de liberação da economia norte-coreana tomando como base o modelo chinês."

A crise dos mísseis em Cuba

O fim dessa primeira fase é assinalado com a crise dos mísseis soviéticos em Cuba. John Kennedy anunciou o fim da crise dos mísseis em Cuba, que ameaçou transformar em atômica a Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos. A crise começou quando espiões americanos detectaram na ilha, por meio de fotos aéreas, a presença de mísseis soviéticos apontados para os Estados Unidos. A instalação das bases de lançamento foi feita por solicitação de Cuba, que queria afastar qualquer tentativa de invasão do país, como a ocorrida no ano passado na Baía dos Porcos, que contou com a ajuda dos Estados Unidos. Os americanos reagiram anunciando o bloqueio naval a Cuba. A decisão contou com o apoio do Brasil, que votou favoravelmente à medida na reunião da OEA. O governo brasileiro, no entanto, foi categórico ao se negar a atender a outro pedido de Kennedy, que queria o apoio do país a uma eventual ação armada, com participação de tropas brasileiras. "Os princípios de não intervenção e da defesa do direito de autodeterminação, que norteiam a política exterior brasileira, não serão alterados em conseqüência dos acontecimentos que no mundo se desenrolam", afirmou o presidente João Goulart. Depois de muita negociação, os soviéticos concordaram em retirar os mísseis em troca da garantia americana de não invadir a ilha e de retirar mísseis da Turquia apontados para a União Soviética.

A crise dos mísseis de Cuba foi o grande evento do governo Kennedy. A pequena ilha do Caribe estava atravessada na garganta de JFK desde abril de 1961. Nessa data, uma brigada de 1400 refugiados cubanos apoiados pela CIA desembarcou na Baía dos Porcos para tentar derrubar Fidel Castro. A desorganização do golpe, aliado à retirada de apoio aéreo - ordenada pelo próprio JFK - resultou na morte de 112 invasores e na prisão do restante. Foi um desastre completo.

Em meio a planos mirabolantes para assassinar o líder cubano, os americanos descobriram através dos vôos do avião de espionagem U-2, que bases para lançamento de mísseis balísticos estavam sendo montados em Cuba. Os treze dias que deram o título ao filme eram o período entre a descoberta e o tempo em que ficariam operacionais. Pela versão oficial, Kennedy impôs um bloqueio naval em Cuba e forçou os russos a retirarem os mísseis. Aplausos homéricos.

A história por baixo do pano é um pouco diferente. Mesmo numa época de corrida armamentista, o poderio militar soviético era muito inferior ao americano. Para se ter uma idéia, enquanto os Estados Unidos tinham trezentos lançadores de mísseis, os russos teriam no máximo quarenta e quatro - já contando com os de Cuba.

No seu ódio irracional para com os cubanos, Kennedy bravateava numa posição de valentão, enquanto corria desesperadamente junto com o irmão Bob para uma solução negociada. Para isso utilizaram até os serviços de um agente da KGB, passando os canais diplomáticos formais.

Ninguém queria uma guerra nuclear, mas acima de tudo, Kennedy queria a reeleição. Por isso, mesmo tendo feito um acordo com Khrushchev, o líder da União Soviética, manteve a propaganda de valentão do mundo. Pelo acordo, os mísseis soviéticos seriam retirados de Cuba em troca de mísseis americanos na Turquia e - o mais importante - a garantia de que a ilha de Fidel jamais sofreria uma invasão dos Estados Unidos. Os cubanos foram os grandes vencedores da crise dos mísseis.

Para o mundo, o que se via era a véspera de um holocausto nuclear. A frota do Comando Aéreo Estratégico, com mais de mil e quatrocentos bombardeiros B-52 e B-47, além de 174 mísseis balísticos intercontinentais entrou em DEFCON 2, que é o último estágio antes da guerra total. Mais de cem mil homens foram posicionados na Costa Leste, enquanto que uma força naval com quarenta mil fuzileiros navegava no Caribe e Atlântico Sul. Enquanto isso, do lado soviético não havia nenhuma atividade que não fosse de rotina.

Como os Kennedy pretendiam se manter pelo menos mais dez anos no poder (com uma reeleição de John e depois a dobradinha Bob-John), é possível que os soviéticos tenham preferido deixar os americanos saboreando uma vitória falsa, e ficar com informações que praticamente manteriam os Kennedy em suas mãos. Só a morte de John desfez tanto as ambições dos Kennedy como a possível ameaça russa.

Em toda a Guerra Fria, o perigo de um conflito nuclear não esteve tão iminente como em outubro de 1962. A União Soviética havia enviado 24 foguetes soviéticos secretamente para Cuba. O presidente norte-americano John Kennedy declarou tratar-se de uma ameaça inaceitável à segurança dos Estados Unidos e anunciou, como represália, o bloqueio de Cuba. O apoio unânime veio da América Latina e dos aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Por seu lado, o governo soviético alegava que a presença de mísseis nucleares norte-americanos na Turquia ameaçava o Kremlin. Nestes dramáticos momentos de tensão entre as duas superpotências, demorou 18 horas para que as notícias oficiais entre Washington e Moscou cruzassem o oceano, sempre indiretamente, através de suas embaixadas.

O conflito armado foi impedido pela União Soviética, que retrocedeu na instalação dos mísseis, depois da promessa norte-americana de não invadir Cuba. Os graves problemas de comunicação foram solucionados com uma "linha direta" entre o chefe de Estado e de Partido soviético Nikita Kruchev e o presidente norte-americano John Kennedy, em 20 de junho de 1963, durante a Conferência pelo Desarmamento.

Através de dois cabos exclusivos de telégrafo, o chefe de Estado e de Partido da União Soviética e o presidente dos Estados Unidos poderiam trocar mensagens diretas. Os líderes dos governos determinaram que a decisão política teria que prevalecer sobre a militar.

Já algum tempo a liderança soviética vinha acenando com a idéia da "coexistência pacífica". O processo de distensão iniciado em fins de 1962 durou aproximadamente dez anos, em benefício não só dos Estados Unidos e da União Soviética, como também da Europa e dos países em desenvolvimento.

Anos 60 e 70: Coexistência Pacífica e Détente

Com sistemas sociais e políticos opostos, armas nucleares e políticas de conquista da hegemonia mundial, Estados Unidos e União Soviética mantêm o mundo sob a ameaça de uma guerra nuclear. São chamadas de superpotências porque cada uma delas tem armamentos suficientes para destruir o planeta sozinhas.

Após a explosão da primeira bomba atômica em 1945, os Estados Unidos fazem testes de novas armas nucleares no atol de Bikini, no Pacífico, e criam a Comissão de Energia Atômica para a expansão de seu poderio nuclear. Em 1949 a União Soviética explode seu primeiro artefato atômico no deserto do Cazaquistão, entrando na corrida nuclear. O mundo ingressa assim na era do terror atômico, na qual cada uma das superpotências se esforça por conseguir uma bomba mais potente que a experimentada pela outra. Em 1952 os Estados Unidos explodem a primeira bomba de hidrogênio, com potência de 15 milhões de TNT (750 vezes mais potente que a primeira bomba atômica). Em 1955 a União Soviética lança sua bomba de hidrogênio de um avião, considerado um importante avanço técnico sobre os norte-americanos. Essa corrida coloca o mundo diante do perigo da destruição. Mas outros países, como Reino Unido, França, China e Índia, entram no rol de países que têm armas nucleares. Países suspeitos de terem a bomba incluem Paquistão e Israel. Em 1963 é assinado o primeiro acordo de limitação de atividades nucleares, proibindo testes na atmosfera.

Em 1955, em Genebra, pela primeira vez se encontram Eisenhower pelos Estados Unidos, Bulganin e Khruchtchev pela URSS e os representantes da França e Grã-Bretanha. Nada de concreto sai da conferência, mas sua realização tem um alcance simbólico. Estabelece-se um novo estado das relações; já que não é exatamente a guerra fria, ainda que suas formas subsistam É o que se denomina a "coexistência pacífica"; os dois grandes resignam a viver juntos, já que não podem esperar suprimir-se; aliás, tão pouco esperar persuadir o outro a esposar suas idéias. As relações internacionais conhecerão, desde então, uma alternância de crises e distensões em que prepondera a vontade de ambos de não levar as coisas até o fim.


Stalinismo X Macarthismo

Stalinismo - Com a morte de Lênin, em 1924, Josef Stálin assume o controle do Partido Comunista e do governo soviético. Sua política de coletivização forçada das terras, a partir de 1929, provoca a morte de 10 milhões de camponeses por fome ou execução. Ele também combate às tendências autonomistas dos povos não russos. Com os Processos de Moscou, iniciados em 1936, nos quais julgamentos sumários podiam resultar em penas que iam da deportação ao fuzilamento, Stálin leva à morte a maioria dos antigos dirigentes bolcheviques. Trotski é assassinado em 1940, no México, por um agente secreto. Em 1941, a Alemanha nazista invade a URSS. O avanço das tropas alemãs em território soviético só é interrompido em 1943, na Batalha de Stalingrado, que muda o curso da II Guerra Mundial. Em 1945, a URSS emerge como a segunda maior potência do mundo, submetendo o Leste Europeu. A economia, no entanto, está arruinada, e as mortes provocadas pelo conflito chegam a 20 milhões.

Macarthismo - Movimento iniciado pelo senador Joseph McCarthy, em 1951, com a organização de comissões de investigação que acusam de atividades antiamericanas qualquer pessoa suspeita de ligação com movimentos ou organizações consideradas comunistas. Realiza uma caça às bruxas na área cultural, atingindo artistas, diretores e roteiristas que durante a guerra manifestam-se a favor da aliança com a União Soviética e, depois, a favor de medidas para garantir a paz e evitar nova guerra. Charlie Chaplin é o mais famoso entre os artistas perseguidos pelo macarthismo. Sindicalistas, cientistas, diplomatas, políticos e jornalistas também são alvo de perseguições. Em 1960 o Senado reconhece que as atividades das comissões dirigidas por McCarthy colocam em risco a ação do governo.

Projeto Guerra nas Estrelas

Quando o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, anunciou em março de 1983 o projeto Iniciativa de Defesa Estratégica (IDE), mais conhecido como "guerra nas estrelas", esse ambicioso plano já tinha sua central de operações. Localizava-se no arenoso atol de Kwajalein, nas ilhas Marshall (Micronésia, Pacífico Norte), e consistia numa base secreta de alta tecnologia. Ali, um grupo selecionado de cientistas civis e militares pesquisava e desenvolvia sistemas antibalísticos e de rastreamento no espaço. Ali também ocorreu a façanha pioneira que consistiu em explodir, com um míssil teleguiado, outro projétil nuclear em pleno ar (...).

Pela primeira vez desde que se iniciou a corrida espacial, conseguia-se interceptar um míssil na alta atmosfera. Tornava-se possível explodir ogivas atômicas no espaço, durante o curto intervalo em que elas se dirigem para o alvo. Era, afinal a prova da viabilidade do projeto "guerra nas estrelas", que prevê o uso do espaço cósmico para a instalação de escudos defensivos antimísseis. Seu papel inicial: proteger o território e as instalações militares americanas contra os 1.400 mísseis balísticos intercontinentais do arsenal soviético, presumivelmente baseados em terra.

A chave da tecnologia da IDE consiste no uso de armas de energia dirigida: feixes de partículas atômicas ou raios laser, que têm velocidade superior à dos mísseis convencionais (de dezenas de quilômetros por segundo até a velocidade da luz, 300.000 km/s, contra apenas alguns quilômetros por segundo dos mísseis). Segundo os defensores do projeto, seria essa a única forma de neutralizar um ataque nuclear nos cinco primeiros e cruciais minutos a partir do seu lançamento: os sistemas antibalísticos então vigentes se baseavam em foguetes capazes de destruir as ogivas atacantes no dois últimos minutos de sua trajetória, quando os projéteis reingressam na atmosfera.

Propaganda de Hollyhood

A partir do final dos anos 40 e nas décadas de 50 e 60, o mundo foi bombardeado com imagens que tentavam mostrar a superioridade do modo de vida de cada sistema. Para ridicularizar o inimigo, os dois lados utilizavam muito a força das caricaturas. A propaganda serviu para consolidar a imagem do mundo dividido em blocos. A novidade era o surgimento do bloco socialista na Europa, formado pelos países com governos de orientação marxista: Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Iugoslávia, Albânia e Bulgária. No mundo ocidental, os capitalistas procuravam mostrar que do seu lado a vida era brilhante. As facilidades tecnológicas estavam ao alcance de todos. Os cidadãos comuns possuíam carros e bens de consumo, tinham liberdade de opinião e de ir e vir. Segundo a propaganda ocidental, a vida no lado socialista, retratada em diversos filmes de Hollywood, era triste e sem brilho, controlada pela polícia política e pelo Partido Comunista. No mundo socialista, as imagens mostravam exatamente o contrário. A vida no socialismo era alegre e tranqüila. Os trabalhadores não precisavam se preocupar com emprego, educação e moradia. Tudo era garantido pelo Estado. A cada dia, as novas conquistas tecnológicas, especialmente na área militar e espacial, mostravam a superioridade do socialismo. A propaganda socialista mostrava, ainda, o mundo ocidental como decadente e individualista, onde o capitalismo garantia, para alguns, uma vida confortável. E para a maioria, uma situação de miséria, privações e desemprego.

CIA X KGB

As duas grandes agências de espionagem, a KGB soviética e a CIA americana, treinavam agentes para atos de sabotagem, assassinatos, chantagens e coleta de informações. Nos dois lados criou-se um clima de histeria coletiva, em que qualquer cidadão poderia ser acusado de espionagem a serviço do inimigo. Na União Soviética, Stalin contribuiu para esse clima, confinando muitos de seus adversários em campos de concentração na Sibéria. Nos Estados Unidos, o senador anticomunista Joseph McCarthy promoveu uma verdadeira caça às bruxas, levando ao desespero inúmeros intelectuais e artistas de Hollywood, acusados de colaborar com Moscou.

A Guerra do Vietnã

"Inicialmente, foi um conflito interno. De um lado existiam os guerrilheiros do Vietnã do Sul, chamados genericamente de vietcongs, que queriam derrubar o governo sul-vietnamita. Esses guerrilheiros eram apoiados pelo Vietnã do Norte, comunista desde 1954. E, de outro lado, os Estados Unidos apoiavam o governo do Vietnã do Sul. É claro que a União Soviética apoiou o governo comunista do Vietnã do Norte e, indiretamente, os vietcongs do sul". (Nélson Bacic Olic geógrafo)

A Guerra do Vietnã foi o mais longo conflito militar que ocorreu depois da II Guerra Mundial. Estendeu-se essa guerra em dois períodos distintos. No primeiro deles, as forças nacionalistas vietnamitas, sob orientação do Viet-minh (a liga vietnamita), lutaram contra os colonialistas franceses, entre 1946 a 1954. No segundo, uma frente de nacionalistas e comunistas - o Vietcong - enfrentou as tropas de intervenção norte-americanas, entre 1964 e 1975. Com um pequeno intervalo entre os finais dos anos 50 e início dos 60, a guerra durou quase 20 anos.

Na verdade, devido a sua irradiação, seria melhor dizer Guerra da Indochina, do qual o Vietnã é uma das partes. A Indochina, região assim chamada por ser uma zona intermediária entre a Índia e a China, ocupa uma península do sudoeste asiático e está dividida entre o Vietnã (subdividido em Tonquim e Conchinchina), o Laos e o reino do Camboja. Toda essa região caiu sob domínio do colonialismo francês entre 1883-5 e assim ficou até a ocupação japonesa, entre 1941-45. Com a queda da França em 1940, formou-se o governo colaboracionista de Vichy, aliado dos nazistas. Em vista disso os japoneses permitiram uma certa autonomia administrativa feita por franceses. Mas em 1945, com a derrota do Japão, os franceses tentaram recolonizar toda a Indochina.

Ho Chi Minh

Ho Chi Minh ("aquele que ilumina"), nasceu em 1890 numa pequena aldeia vietnamita, filho de um professor rural. Tornou-se um dos mais importantes e lendários líderes nacionalistas e revolucionários do mundo do após-guerra. Viajou muito jovem como marinheiro e tornou-se socialista quando viveu em Paris, entre 1917 e 1923. Quando ocorreu as Conferências de Versalhes, em 1919, para fixar um novo mapa mundial, o jovem Ho Chi Minh (então chamado de Nguyen Ai quoc, o "patriota"), solicitou aos negociadores europeus que fosse dado ao Vietnã um estatuto autônomo. Ninguém lhe deu resposta, mas Ho Chi Minh tornou-se um herói para o seu povo.

Em 1930 ele fundou o Partido Comunista Indochinês e seu sucessor, o Viet-mihn (Liga da Independência do Vietnã), em 1941, para resistir à ocupação japonesa. Foi preso na China por atividade subversiva e escreveu na prisão os "Diários da Prisão", em chinês clássico, uma série de poemas curtos, onde enalteceu a luta pela independência.

Com seus companheiros mais próximos, Pahm Van Dong e Vo Nguyen Giap, lançou-se numa guerra de guerrilhas contra os japoneses, obedecendo à estratégia de Mao Tse Tung de uma "guerra de longa duração". Finalmente, em 2 de setembro de 1945, eles ocupam Hanói (a capital do norte) e Ho Chi Minh proclamou a independência do Vietnã. Mas os franceses não aceitaram. O Gen. Leclerc, a mando do Gen. De Gaulle, recebeu ordens de reconquistar todo o norte do país, nas mãos dos comunistas de Ho Chi Minh. Isso irá jogar a França na sua primeira guerra colonial depois de 1945, levando-a a derrota na batalha de Diem Biem Phu, em 1954, quando as forças do Viet-minh, comandadas por Giap, cercam e levam os franceses à rendição. Depois de oito anos, encerrou-se assim a primeira Guerra da Indochina.

A Conferência de Genebra

Em Genebra, na Suíça, os franceses acertaram com os vietnamitas um acordo que previa:

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O Vietnã seria momentaneamente dividido em duas partes, a partir do paralelo 17, no Norte, sob o controle de Ho Chi Minh e no Sul sob o domínio do imperador Bao Dai, um títere dos franceses;
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Haveria entre eles uma Zona Desmilitarizada (ZDM);
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Seriam realizadas em 1956, sob supervisão internacional, eleições livres para unificar o país. Os Estados Unidos presentes no encontro não assinaram o acordo.

A ditadura de Diem

Entrementes no Sul, assumia a administração em nome do imperador, Ngo Dinh Diem, um líder católico, que em pouco tempo tornou-se o ditador do Vietnã do Sul. Ao invés de realizar as eleições em 1956, como previa o acordo de Genebra, Diem proclamou a independência do Sul e cancelou a votação. Os americanos apoiaram Diem porque sabiam que as eleições seriam vencidas pelos nacionalistas e pelos comunistas de Ho Chi Minh. Em 1954, o Gen. Eisenhower, presidente dos Estados Unidos, explicou a posição americana na região pela defesa da Teoria de Dominó: "Se vocês porem uma série de peças de dominó em fila e empurrarem a primeira, logo acabará caindo até a última... se permitirmos que os comunistas conquistem o Vietnã corre-se o risco de se provocar uma reação em cadeia e todo os estados da Ásia Oriental tornar-se-ão comunistas um após o outro".

A partir de então Diem conquistou a colaboração aberta dos EUA, primeiro em armas e dinheiro e depois em instrutores militares. Diem reprimiu as seitas sul-vietnamitas, indispôs-se com os budistas e perseguiu violentamente os nacionalistas e comunistas, além de conviver, como bom déspota oriental, com uma administração extremamente nepótica e corrupta. Em 1956, para solidificar ainda mais o projeto de contenção ao comunismo, especialmente contra a China, o secretário John Foster Dulles criou, em Manilla, a OTASE (Organização do Tratado do Sudeste Asiático), para servir de suporte ao Vietnã do Sul.

A segunda guerra da Indochina, a Guerra Civil e a intervenção americana

Com as perseguições desencadeadas pela ditadura Diem, comunistas e nacionalistas formaram, em 1960, uma Frente de Libertação Nacional (FLN), mais conhecida como Vietcong, e lançaram-se numa guerra de guerrilhas contra o governo sul-vietnamita. Em pouco tempo o ditador Diem mostrou-se incapaz de por si só vencer seus adversários. O presidente Kennedy envia então os primeiros "conselheiros militares" que, depois de sua morte em 1963, serão substituídos por combatentes. Seu sucessor, o presidente L. Johnson aumenta a escalada de guerra, depois do incidente do Golfo de Tonquim, em setembro de 1964. Esse incidente provou-se posteriormente ter sido forjado pelo Pentágono para justificar a intervenção. Um navio americano teria sido atacado por lanchas vietnamitas em águas internacionais (na verdade era o mar territorial norte-vietnamita), quando patrulhava no Golfo de Tonquim. Assim os norte-americanos consideraram esse episódio como um ato de guerra contra eles, fazendo com que o Congresso aprovasse a Resolução do Golfo de Tonquim, que autorizou o presidente a ampliar o envolvimento americano na região.

Em represália a um ataque norte-vietnamita e vietcong a base de Pleiku e Qui Nhon o presidente Johnson ordena o bombardeio intenso do Vietnã do Norte. Mas as tentativas de separar o Vietcong das suas bases rurais fracassam, mesmo com a adoção das chamadas "aldeias estratégicas" que na verdade eram pequenas prisões onde os camponeses deveriam ficar confinados.

A reação contra a guerra e a contra-cultura

"Muitos dizem, inclusive, que a Guerra do Vietnã foi a primeira guerra televisada do mundo, em cores e ao vivo. Era chamada, na época, de ‘guerra da sala de jantar’. (...) A cinematografia americana também levou em conta o conflito, obviamente. Num primeiro momento, os filmes eram a favor da intervenção norte-americana no Vietnã. É o caso específico do filme ‘Os Boinas Verdes’, com John Wayne. E depois, com o término da guerra, começaram a aparecer filmes que questionavam a validade ou não da intervenção no conflito. Talvez um dos filmes mais marcantes tenha sido ‘Platoon’, de Oliver Stone".(Nélson Bacic Olic geógrafo)

A participação crescente dos EUA na Guerra e a brutalidade e inutilidade dos bombardeios aéreos - inclusive com bombas napalm - fez com que surgisse na América um forte movimento contra a guerra. Começou num bairro de São Francisco, na Califórnia, o Haight - Aschbury, com "as crianças das flores" (flower children), quando gente jovem lançou o movimento "paz e amor" (peace and love), rejeitando o projeto da Grande Sociedade do pres. Johnson.

A partir de então tomou forma a movimento da contra-cultura - chamado de movimento hippy - que teve enorme influência nos costumes da geração dos anos 60, irradiando-se pelo mundo todo. Se a sociedade americana era capaz de cometer um crime daquele vulto, atacando uma pobre sociedade camponesa no sudeste asiático, ela deveria ser rejeitada. Se o americano médio cortava o cabelo rente como um militar, a contracultura estimulou o cabelo despenteado, cumprido, e de cara com barba. Se o americano médio tomava banho, opunham-se a ele andando sujos. Se aqueles andavam de terno e gravata, aboliram-na pelo brim e pela sandália. Repudiaram também a sociedade urbana e industrial, propondo o comunitarismo rural e a atividade artesanal, vivendo da fabricação de pequenas peças, de anéis e colares. Se o tabaco e o álcool eram a marca registrada da sociedade tradicional, aderiram à maconha e aos ácidos e as anfetaminas. Foram os grandes responsáveis pela prática do amor livre e pela abolição do casamento convencional e pela cultura do rock. Seu apogeu deu-se com o festival de Woodstock realizado no Estado de N.York, em 1969.

A revolta instalou-se nos Campi Universitários, particularmente em Berkeley e em Kent onde vários jovens morrem num conflito com a Guarda Nacional. Praticamente toda a grande imprensa também se opôs ao envolvimento. Surgiram entre os negros os Panteras Negras (The Black Panthers), um expressivo grupo revolucionário que pregava a guerra contra o mundo branco americano da mesma forma que os vietcongs. Passeatas e manifestações ocorriam em toda a América. Milhares de jovens negaram-se, pela primeira vez na história do país, a servir no exército, desertando ou fugindo para o exterior.
Esse clima espalhou-se para outros continentes e, em 1968, em março, eclodiu a grande rebelião estudantil no Brasil contra o regime militar, implantado em 1964, e em maio, na França, a revolta universitária contra o governo do Gen. de Gaulle. Outras ainda ocorreram no México e na Alemanha e Itália. O filósofo marxista Herbert Marcuse afirmou que a revolução seria feita doravante pelos estudantes e outros grupos não assimilados pela sociedade de consumo conservadora.

A ofensiva do Ano Tet e o desengajamento

Em 30 de janeiro de 1968, os vietcongs fizeram uma surpreendente ofensiva - a ofensiva do Ano Tet (o ano lunar chinês) - sobre 36 cidades sul-vietnamitas, ocupando inclusive a embaixada americana em Saigon. Morreram 33 mil vietcongs nessa operação arriscada, pois expôs quase todos os quadros revolucionários, mas foi uma tremenda vitória política. O gen. Wetsmoreland, que havia dito que "já podia ver a luz no fim do túnel", predizendo uma vitória americana para breve, foi destituído, e o presidente Johnson foi obrigado a aceitar negociações, a serem realizadas em Paris, além de anunciar sua desistência de tentar a reeleição. Para a opinião pública americana tratava-se agora de sair daquela guerra de qualquer maneira. O novo presidente eleito, Richard Nixon, assumiu o compromisso de "trazer nossos rapazes de volta", fazendo com que lentamente as tropas americanas se desengajassem do conflito. O problema passou a ser de que maneira os Estados Unidos poderiam obter uma "retirada honrosa" e manter ainda o seu aliado, o governo sul-vietnamita.

Desde 1963, quando os militares sul-vietnamitas, apoiados pelos americanos, derrubaram e mataram o ditador Diem (aquela altura extremamente impopular), os sul-vietnamitas não conseguiram mais preencher o vácuo de sua liderança. Umas séries de outros militares assumiram a chefia do governo transitoriamente enquanto os combates mais e mais eram tarefa dos americanos. Nixon passou a reverter isso, fazendo com que os sul-vietnamitas voltassem a ser encarregados das operações. Chamou-se isso de "vietnamização" da guerra. Imaginou que os abastecendo o suficiente de dinheiro e armas eles poderiam lutar sozinhos contra o vietcong. Transformou o presidente Van Thieu num simples títere desse projeto. Enquanto isso as negociações em Paris marcavam passo. Em 1970, Nixon ordenou o ataque a célebre trilha Ho Chi Minh que passava pelo Laos e Camboja e que servia como estrada de abastecimento do vietcong. Estimulou também um golpe militar contra o neutralista príncipe N. Sianouk do Camboja, o que provocou uma guerra civil naquele país entre os militares direitistas e os guerrilheiros do Khmer Vermelho (Khmer Rouge) liderados por Pol Pot.

A derrota e a unificação

Depois de imobilizarem militarmente as forças americanas em várias situações, levando-as a serem retiradas do conflito, os norte-vietnamitas de Giap, juntamente com os vietcongs, prepararam-se para a ofensiva final. Deixaram de lado a guerra de guerrilhas e passaram a concentrar suas forças para um ataque em massa. Desmoralizado, o exército sul-vietnamita começou a dissolver-se. Haviam chegado a 600 mil soldados, mas reduziu-se apenas a um punhado de combatentes. Em dezembro de 1974, os nortistas ocupam Phuoc Binh, a 100 quilômetros de Saigon. Em janeiro de 1975 começou o ataque final. O pânico alcança os sul-vietnamitas que fogem para as cercanias da capital. O presidente Thieu embarca para o exílio e os americanos retiram o resto do seu pessoal e grupos de colaboradores nativos. Finalmente, no dia 30 de abril, as tropas nortistas ocupam Saigon e a rebatizam como Ho Chi Minh, em homenagem ao líder falecido em 1969. A unificação nacional foi formalizada em 2 de julho de 1976 com o nome de República Socialista do Vietnã, 31 anos depois de ter sido anunciada. Mais de um milhão de vietnamitas perecem enquanto que 47 mil mortos e 313 mil feridos ocorreram pelo lado americano, a um custo de US$ 200 bilhões.

Conseqüências da guerra

O Vietnã foi o país mais vitimado por bombardeios aéreos no século XX. Caíram sobre suas cidades, terras e florestas, mais toneladas de bombas do que as que foram lançadas na II Guerra Mundial. Para tentar desalojar os guerrilheiros das matas foram utilizados violentos herbicidas - o agente laranja - que dizimou milhões de árvores e envenenou os rios e lagos do país. Milhares de pessoas ficaram mutiladas pelas queimaduras provocadas pelas bombas de napalm e suas terras ficaram imprestáveis para a lavoura. Por outro lado, aqueles que não aceitaram viver no regime comunista fugiram em precárias condições, tornaram-se boat people, navegando pelo Mar da China em busca de um abrigo ou vivendo em campos de refugiados em países vizinhos. O Vietnã regrediu economicamente a um nível de antes da II Guerra Mundial. Os Estados Unidos por sua vez saíram moralmente dilacerados, tendo que amargar a primeira derrota militar da sua história. Suas instituições - a CIA e o Pentágono - foram duramente criticadas e um de seus presidentes, Richard Nixon, foi obrigado a renunciar em 1974, depois do escândalo de Watergate. Nunca mais o establishment americano voltou a ganhar a integral confiança dos cidadãos.

A primeira vez que o Vietcongue atacou o exército do sul foi dia 8 de julho de 1959, em Bien Hoa, próximo a Saigon. A 20 de dezembro de 1960, a Frente Nacional de Libertação (FNL) foi formada no Vietnã do Norte para organizar a conquista do sul. O exército do sul foi derrotado pelos vietcongues na batalha de Ap Dac, no dia 2 de janeiro de 1963, e ficou claro que o Vietnã do Sul necessitaria de ajuda para manter-se independente.
A interferência dos EUA na guerra pelo presidente Johnson aconteceu por fases, entre agosto de 1964 e junho de 1965. A primeira unidade de combate americana, com 3.500 fuzileiros navais, desembarcou em Da Nang, no dia 8 de março de 1965.

Os americanos empreenderam operações maciças de busca e destruição, com helicópteros, artilharia e veículos blindados. A Operação Cedar Falls, ao norte de Saigon, em janeiro de 1967, e a Operação Junction City, em fevereiro, foram bem-sucedidas. Ao final de 1967, mais de 500 mil americanos estavam no Vietnã, e os caças bombardeiros americanos voavam em 200 missões ao dia sobre o Vietnã do Norte. Em 30 de janeiro de 1968, durante a trégua que marcou as festividades Tet do ano novo budista, o Vietcongue iniciou uma grande ofensiva contra cidades do norte, de províncias costeiras e planaltos centrais. Em 31 de janeiro, cinco mil vietcongues, que se haviam infiltrado em Saigon, atacaram alvos selecionados, incluindo o Palácio Presidencial e a Embaixada Americana. Os americanos e as forças do exército vietnamita do sul responderam rapidamente. As perdas comunistas na Ofensiva Tet excederam aquelas dos americanos durante toda a guerra. No final de 1968, o poderio militar americano no Vietnã do Sul atingiu a cifra dos 549 mil homens. O general Creighton Abrams, substituindo Westmoreland como comandante-em-chefe, usou tropas móveis em helicópteros para atingir concentrações de vietcongues.

O Vietcongue lançou ofensivas em fevereiro, maio e agosto de 1969. Paulatinamente, tropas americanas foram sendo retiradas das áreas de combate e, no dia 1º de setembro de 1969, os vietnamitas do Sul ficaram sós no combate, em toda a região do delta do Mekong. O número de americanos no Vietnã também foi reduzido gradativamente, até chegar a 171 mil em 1971. Essa redução foi imposta pela forte influência da opinião pública americana, que era contra a guerra.

Em resposta a uma série de ofensivas inimigas, os Estados Unidos retaliaram, aumentando muito o bombardeio aéreo ao norte. Em 11 de agosto de 1972, a última unidade de combate americana foi retirada do Vietnã do Sul, embora 43 mil homens da força aérea tenham permanecido. Para os Estados Unidos, o final do conflito veio no dia 2 de janeiro, quando um tratado de paz foi assinado. Entre o dia 1º de janeiro de 1961 e 27 de janeiro de 1972, as baixas americanas foram de 45.941 mortos e 300.635 feridos. A participação australiana no Vietnã começou em 1962 e, dois anos depois, três batalhões com tropas de auxílio estavam de serviço na província de Phuoc Tuy. Cerca de 47 mil soldados serviram durante a guerra, com um reforço de oito mil no auge do conflito. A batalha mais importante para os australianos foi a de Long Tan, em agosto de 1966, quando 108 homens avançaram em direção a uma armadilha vietcongue de 2.500 homens.

Durante 1973 e 1974, a atividade comunista intensificou-se, e ocorreram muitas violações ao cessar-fogo. Durante os meses de março e abril de 1975, os ataques comunistas destruíram as forças do exército vietnamita do sul, forçando o governo a render-se aos comunistas em 30 de abril. Nos 16 anos de guerra, mais de 150 mil vietnamitas do Sul morreram e 400 mil foram feridos. As baixas não-oficiais para o Vietnã do Norte e para as tropas vietcongues chegaram a 100 mil mortos e 300 mil feridos. Comenta-se muitas vezes que a guerra começou em 1961. Claramente, as hostilidades surgiram em 1959, embora a ajuda militar americana direta ao Vietnã do Sul tenha se iniciado em dezembro de 1961.

Durante várias gerações do povo vietnamita, a vida foi sinônimo de guerra, fogo e sangue. Ao longo de 30 anos, eles lutaram contra o governo colonial por uma libertação nacional. Em 29 de abril de 1975, um dos mais longos conflitos do século XX finalmente termina, depois de 30 anos de derramamento de sangue. Primeiro os japoneses, depois os franceses e por fim os americanos renderam-se diante da determinação do povo vietnamita, que recuperou seu país ao preço de milhões de vidas.