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Tópico: As três dimensões do discurso: sintaxe, semântica, pragmática

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    Padrão As três dimensões do discurso: sintaxe, semântica, pragmática

     

    Sintaxe

    A complexidade da linguagem humana não se reduz às regras lógicas, pois o discurso pode ser analisado segundo diferentes perspectivas.

    Podemos analisá-lo do ponto de vista da sua estrutura. É a sintaxe que analisa as relações entre os signos independentemente do que eles designam.

    Um conjunto de letras postas ao acaso não é uma palavra; «lvroi» não é uma palavra. Para que se torne numa palavra do nosso código linguístico, a língua portuguesa, as letras terão de ser estruturadas segundo um certa ordem: «livro». Do mesmo modo, uma série de palavras só se constitui como uma frase quando as palavras se apresentam relacionadas de um certo modo desempenhando cada uma delas diferentes funções. As seguintes palavras « bom ler ando livro a um» só se constitui como uma frase se as palavras se apresentarem na ordem certa «ando a ler um bom livro». Também o discurso exige uma sequência de enunciados relacionados entre si de acordo com uma determinada ordem (sequencial, causal...).

    Esta articulação obedece a regras; estabelecer e analisar tais regras é o objecto da sintaxe. Assim chamamos sintaxe a esta análise das regras que regem o encadeamento dos signos no interior dos diversos actos de fala ou de discurso.

    A sintaxe de uma língua, por exemplo, estabelece as regras que definem:

    • o lugar das palavras para a construção das frases;

    • as relações de articulação entre as frases de modo a garantir a coerência do discurso.

    A sintaxe lógica analisa os elementos formais que dão estrutura ou sequência aos enunciados ou proposições (uma proposição é, como veremos mais adiante, a tradução de um juízo numa linguagem; um juízo é uma operação lógica de ligação entre conceitos).

    A conexão sintáctica entre os enunciados é assegurada por uma série de termos de ligação, sem os quais não poderíamos relacionar diferentes proposições mas apenas construir proposições isoladas do tipo «o livro é bom» ou «o livro aborda o tema da linguagem», a que os lógicos chamam proposições atómicas por ligarem átomos linguísticos.

    Para podermos relacioná-las e construir um discurso é necessário usar determinados signos do tipo «e», «ou», «se... então» que conferem ao discurso a sua estrutura. No exemplo citado, «o livro é bom e aborda o tema da linguagem». Podemos, então, concluir que a sintaxe lógica é o estudo das relações entre os signos e as proposições, abstraindo do seu significado, sendo, por isso, a teoria da construção de toda a linguagem lógica, pois trata da determinação das regras que permitem combinar os símbolos elementares de modo a construir proposições correctas; analisando os problemas postos pela definição das variáveis lógicas e respectivas relações, aborda o discurso apenas do ponto de vista da sua estrutura, isto é, da sua forma, para garantir a sua validade formal.

    Vejamos um exemplo:

    Nas proposições «Maria e João foram ao cinema» e «O livro e a caneta são azuis», a partícula «e» é que dá a forma, pois é o elemento de ligação (um conector ou functor) que marca a relação entre as variáveis, independentemente de serem Maria, João, livro ou caneta.


    Semântica

    Podemos analisar a relação dos signos com os seus referentes, isto é, com os objectos por eles designados, ou com outros signos com idêntico ou diverso significado; esta análise que visa estudar os problemas postos pela interpretação do significado do signos é a semântica e trata, portanto, da significação ou do valor de verdade e/ou falsidade das proposições.

    Ora, para podermos saber o que quer dizer o emissor, impõe-se conhecer o contexto da enunciação, isto é, quem disse, em que circunstâncias, com que intenção. Para compreendermos o que um amigo nos diz numa conversa, o que o professor diz numa aula, o que um político diz na televisão ou um jornalista num artigo de jornal não basta dominar o código. O domínio da língua é necessário mas não suficiente para se compreender a mensagem emitida pelo emissor. Os sujeitos que participam no acto de comunicação afectam o significado do que é enunciado. Este significado depende, em grande parte da experiência que a pessoa tem e do modo como as expressões são usadas. A compreensão do significado de um enunciado depende das circunstâncias do seu uso, por isso, Wittgenstein afirmou que «meaning is use» (o significado da linguagem está no seu uso).


    Pragmática

    Podemos ainda analisar o discurso segundo o uso que os interlocutores fazem das linguagens tendo em vista a acção que exercem uns sobre os outros. É o que faz a pragmática que trata dos signos na sua relação com os utilizadores, da adaptação das expressões às situações e aos contextos em que são enunciados, trata, enfim, das significações. O interesse transfere-se, agora, para a comunicação efectiva, para o que significam os signos para alguém, para o acto que é realizado quando se fala, para os efeitos que se pretende obter quando se fala. Do ponto de vista de algumas escolas da Filosofia da Linguagem, ao falar realizamos actos, «actos de fala», que visam transformar os comportamentos do outro. Austin (1911-1960, filósofo inglês representante do movimento designado de «Filosofia Analítica» que considerava que os problemas da filosofia se identificavam com problemas de linguagem) designou estes «actos de fala» como se segue:

    • acto locutório — o falante diz algo;

    • acto ilocutório — o falante faz algo, uma vez que o falar é já um agir; ao dizer «prometo que», o falante realiza o acto de prometer; pelo facto de dizer algo está a fazer esse algo, seja a prometer, seja a agradecer, a aconselhar, a recusar, a elogiar, etc.;

    • acto perlocutório — o falante exerce uma acção sobre o seu interlocutor. Ao dar uma ordem, por exemplo, o locutor afirma a sua vontade e define o papel que institucionalmente lhe está conferido, ao mesmo tempo que define o papel do seu interlocutor — o papel de obedecer e de executar o que lhe foi ordenado.




    Contudo, devemos sublinhar que os níveis sintáctico, semântico e pragmático não definem dimensões do discurso que funcionem isoladamente, independentemente umas das outras. Qualquer pesquisa, numa perspectiva pragmática, pressupõe que o discurso seja analisado na sua estrutura, pois os signos isolados não têm significado. A semântica pressupõe a sintaxe dado que as palavras para serem comprendidas têm de significar alguma coisa e o seu significado depende da relação que mantém com as outras palavras.

    A sintaxe é o única dimensão que pode ser tratada isoladamente; analisa, como sabemos, a estrutura formal de um enunciado ou de um encadeamento de enunciados para lhe avaliar exclusivamente a sua validade formal. As reflexões e análises semânticas e pragmáticas decorrem do alargamento das perspectivas que se foram construindo sobre as questões da linguagem e do excessivo formalismo dos sistemas lógicos. A significação, por exemplo, é hoje perspectivada em função dos contextos do uso comunicacional da linguagem e não apenas em função de um sistema formal de regras lógicas. A importância da performance linguística reside precisamente no facto de se ter constatado o carácter redutor do formalismo lógico e a necessidade de uma teoria da significação e de uma teoria de comunicação para acedermos a uma compreensão global da linguagem.


    ||Fonte: O site da educação

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