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Tópico: Porque a caneta pode ser mais poderosa do que a espada (NUNO GALOPIM)

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    Padrão Porque a caneta pode ser mais poderosa do que a espada (NUNO GALOPIM)

     

    O documentário de Martin Scorsese e David Tedeschi que assinalou os 50 anos da “New York Review of Books” é um espantoso olhar sobre o poder dos livros, mostrando como uma boa publicação de crítica literária nos pode dar armas para refletir e agir sobre o mundo à nossa volta.


    Porque tem o poder despótico e não democrático tanto medo dos livros, de quem os escreve, de quem sobre eles fala e, claro, de quem os lê. Ao vermos Uma Discussão de 50 anos, documentário de Martin Scorsese e David Tedeschi que assinalou o meio século de vida da New York Review of Books, a resposta surge nas entrelinhas de um filme que, mesmo não sendo um documentário sobre figuras, casos ou movimentos políticos, mostra como o poder das ideias e a ação dos intelectuais não é coisa que se esgote em linhas de palavras. Porque estas ressoam, fazem-se escutar e, à sua maneira, também lutam.

    Não podia pois ser mais oportuna a estreia de um filme que surgiu em 2013 para assinalar uma história iniciada 50 anos antes… Mas que, logo na sequência de abertura, nos confronta com uma cobertura jornalística do movimento “Occupy Wall Street” notando como a falta de um programa maior e mais alinhavado impediu que aquele foco de resistência, crítica e ativismo tivesse depois consequências mais evidentes. E basta recordar as manifestações no dia que se seguiu à tomada de posse de Donald Trump ou as muitas que, nos últimos dias, se levantaram em protesto contra uma ordem executiva que bania a entrada nos EUA de pessoas de sete países de maioria muçulmana, além de colocar um travão aos refugiados vindos da Síria para que se entenda como as lições do passado recente podem servir para pensar o presente em que vivemos. E onde podemos encontrar essa visão crítica sobre o movimento “occupy”? Num artigo publicado pela New York Review of Books…

    O filme, que tanto recorre a entrevistas expressamente realizadas para este projeto como junta inúmeros pedaços de memória de arquivo que nos recordam acontecimentos e, sobretudo, declarações de antigos colaboradores da revista que não estão já entre nós, mostra-nos como uma publicação de crítica literária tem desempenhado um papel de alerta e reflexão, assim como de fidelidades a valores estruturais do melhor jornalismo, tendo ao longo da sua vida levantado questões sobre a paz (foi incisiva a sua voz sobre a guerra no Vietname), os conflitos políticos em curso (das várias eleições americanas à Primavera Árabe), as grandes lutas sociais (de igualdade racial, de género ou as causas identitárias), as figuras do poder, isto sem esquecer nunca nem as artes nem as ciências… Com livros na base da esmagadora maioria dos textos. Mas ocasionalmente desafiando grandes escritores, académicos ou jornalistas a escrever sobre assuntos mesmo sem que de uma crítica literária se trate.

    O filme tem como alma a figura rara, cativante e hoje quase sedutoramente anacrónica do editor Robert B. Silvers, hoje com 87 anos. É das suas carteiras de preocupações e interesses que nascem as ideias que chegam às páginas. Homem moderno, esclarecido, faz da sua visão que contrasta com os solavancos fragmentários da era do “tweet” a alma de uma publicação que, mesmo com algumas ligeiras mudanças, ainda segue gráfica, temática e formalmente a alma da mesma revista que entrou em cena em 1963 aproveitando o vazio ditado por uma greve que deixara por uns tempos as bancas dos jornais sem uma publicação de crítica literária.

    Em 50 anos a New York Review of Books chamou algumas das maiores autoridades a dar-nos a conhecer com rigor e convite à reflexão os temas que fazem o presente, mas também aqueles que a memória se encarrega de não esquecer. No fim ficou a vontade de chegar a casa e voltar a folhear algumas edições que se foram acumulando… A matéria prima do filme estava ali. As ideias, depois, cabe a cada um de nós pensar por si. Porque se há valor maior nas páginas da revista (e que o filme tão bem documenta), é que não há nada melhor do que fazer com que cada um aprenda a pensar por si… E essa é uma das armas mais temidas pelos tiranos e quem os serve.


    O filme “Uma Discussão Com 50 Anos” está em exibição, às 22.00, todos os dias, no Cinema Ideal (Lisboa).

    NUNO GALOPIM
    https://maquinadeescrever.org/

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